
Como você faz para dirigir um filme quando todo mundo já conhece a história e sabe como termina?
De certa forma, isso é uma vantagem. As pessoas conhecerem e amarem o livro quer dizer que as pessoas querem ver o filme, que é na verdade o que você espera quando você está fazendo um filme. É acima de tudo um bom equilíbrio entre ser o mais fiel possível ao espírito do livro, e também trazer mudanças. Eu me considero um fã tanto como qualquer outro, e eu tenho uma maneira de ver o livro na minha cabeça, como qualquer outro fã teria a mesma capacidade, só que acontece que eu tenho dezenas de milhões de dólares à minha disposição para por em prática essa visão. Espera-se que seja uma visão suficientemente forte do livro de modo que as pessoas vão se divertir, se entreter e ficar animadas, mesmo sabendo como as coisas vão acabar no fim.
Uma das minhas teorias da conspiração preferidas de Lua Nova é que os produtores estariam exigindo que Kristen e Robert mantenham seu amor escondido pois isso afetaria a maneira como as pessoas vão perceber a história, mesmo que a história já seja conhecida. Os fãs sabem como se parecem os Volturi, ou como vai ficar o maravilhoso corpo de Taylor Lautner como Jacob – os produtores sabem que estas coisas são pontos fortes de curiosidade a respeito da nossa capacidade de sermos fiéis aos apelos do povo. E eles querem analisar essas coisas ao longo do tempo. [Risos] É uma conspiração, que se chama Marketing.
Há tantos filmes sobre vampiros, romances vampiros, romances adolescentes, o que que tem o triângulo amoroso de Twilight que catalisa este fenômeno? Para mim, ele tem muito menos a ver com vampiros e lobisomens e é mais facilmente identificável com situações emocionais. Bella tem que escolher entre o amigo carinhoso que está sempre por perto e o sujeito distante e inatingível que ela ama. Essa é uma situação bastante comum e, infelizmente, levar um pé na bunda também. Eu sei que eu já passei por isso, praticamente todo mundo já passou, exceto os incrivelmente sortudos – e o elemento sobrenatural só permite acrescentarmos um nível de realização de sonhos. Nós podemos tirar fora esse cenário de um modo geral. Quando alguém termina com você, você gosta de achar que, se você fizer algo corajoso o suficiente, algo surpreendente o suficiente, você pode salvar o relacionamento que foi quebrado. E você gosta de pensar que a pessoa que deixou você, deixou para seu próprio bem e contra o próprio coração. Mas normalmente esse não é o caso, só que em Lua Nova é, por isso é uma bela maneira de se ter um sonho realizado. É ótimo que a Summit, como um estúdio, entende que há momentos escuros que o filme tem que alcançar para que tudo funcione. Eles não tem medo da angústia e da tristeza que está no livro. De certa forma, o filme pode ser meio antiquado para os chorões, bem como muito de vanguarda em termos de efeitos visuais.
Ele tem esse tom meio de ópera que é trilha sonora para qualquer pessoa com um coração partido. Nós vamos provavelmente montar um dos melhores álbuns mistos de todos os tempos para corações partidos na trilha sonora. Alexandre Desplat fazendo a música significa que vai ter esse sentimento de romantismo francês que vem do mentor do Alexandre, Maurice Jarre, e tudo que ele fez nos filmes de David Lean, desde Debussy e Ravel e esse tipo de coisa.
Há um monte angústia no emocionalismo da obra. Eu acho eu agora, provavelmente, deveria acrescentar neste ponto que tem bastante coisa para os meninos também. Mas deixemos isso de lado por enquanto.
Você falou a um minuto atrás sobre Pattinson como sendo um “homem inatingível”. Nós sempre vemos notícias sobre um homem perseguindo uma mulher. É raro ver histórias em que uma mulher realmente persegue um homem, e quando se faz, geralmente é tratada como “All About Steve”, onde acaba caindo em um tipo de perseguição de história em quadrinhos. Isso é uma farsa.
Exatamente. Você sempre vê o olhar masculino nos filmes, mas este parece ter um forte olhar feminino. Um dos pré-requisitos é quantas vezes Pattinson e Lautner vão tirar a camisa. Está lá no script, e isso é uma das coisas para as meninas, na verdade. As mulheres têm sido bastante objetivadas nos filmes de Hollywood. E tem ainda uma espécie de castidade na objetivação de Crepúsculo e Lua Nova. Esperamos que se aborde isso com um pouco de tato, e não apenas como um excesso de futilidades musculosa. Quando você está gravando qualquer tipo de nudez acima da cintura você espera que se adapte à demanda do momento, não está lá só por estar mesmo. Dito isto, eu acho que levamos ao Comic-Con um monte de músculos, e foi muito divertido ver a reação que isso teve. Eu tentei fazer filmes que levam em conta os membros femininos da platéia. Até mesmo American Pie, que vem de um gênero que é notoriamente misógino.
Eu concordo com isso. Em American Pie, você fez questão de mostrar o lado da menina de porque ela ia ou não ia transar na noite do baile de formatura, foi justo. Nós estávamos tentando dizer, também, que elas estavam na verdade, no controle da situação, e os caras eram mais ou menos bobões desesperados apenas tentando navegar nestas águas. As meninas estavam no controle do que aconteceria e quando.
American Pie – assim como Twilight – foi um daqueles filmes que transformou todos no elenco em estrelas. Desta vez, você está querendo dar a esta nova geração conselhos de carreira ou de vida? Eu, particularmente, não me sinto qualificado porque eu não estou na situação deles. Eu não tenho que lidar com a fama, eu sou capaz de ligar ou desligar, ou melhor, o departamento de publicidade é capaz de ligar e desligar isso. Eu não ando por aí e sou reconhecido. Eu sou reconhecido numa proporção inversa à minha proximidade com Rob. Tem tipo uma equação que eu poderia calcular isso. Basicamente, se eu estou a 50 jardas de distância de Rob, eu sou assunto. Se não, eu não sou. Eu acho que eles realmente não precisam dos meus conselhos, porque eles estão bem determinados a permanecerem fiéis à suas próprias vidas, e não deixar que qualquer coisa possa virar a suas cabeças. E esse é o único conselho que eu poderia dar a eles: que se mantenham as pessoas inteligentes e decentes que eles já são. E eu não acho que eles estão desenvolvendo qualquer problema a esse respeito.
Ouvi dizer que a experiência no set foi como viver em “A Hard Days Night”.
Foi assim na Itália. Embora não foi tanto corrida e perseguição. Eu compararia mais com The Birds. Você olha ao redor e então tem 10 meninas de repente lá. E então tem 20. Em seguida, 30, depois 40. E, de repente, a rua que você tinha a intenção de passar para chegar ao seu próximo local de filmagens ou para almoçar está simplesmente bloqueada e não há como passar. Ou então você vai conseguir passar, mas vai levar horas porque você vai tirar fotos e dar autógrafos. O que é justo, porque eles vêm até aqui e eles são de fato a razão pela qual nós estamos lá. Ou você teria que ser um malvado de verdade e passar reto por elas. Eu desenvolvi um olhar preocupado que às vezes funciona. Eu tento parecer como se tivesse algo indo muito mal em um outro local, e às vezes isso me deixa escapar de umas situações.
Houve algumas experiências loucas com fãs? A coisa mais louca tem sido o quanto as pessoas são extraordinariamente solidárias, amigáveis e o quanto elas estão entusiasmadas. Elas realmente querem que isso seja feito direito, mas elas não são mega-críticas. Há um grau de confiança entre as pessoas fazendo o filme e as pessoas que querem vê-lo, e nós somos inocentes até que se prove o contrário. E isso é ótimo, porque isso nem sempre acontece com os fãs meninos. Eu encontrei uma menina italiana em Montepulciano, que depois apareceu em Vancouver, e ela fala Inglês impecavelmente. Essa é uma das razões que eu me lembrei dela. Ela veio até mim e disse, “Você se lembra de mim?” e eu disse que sim, eu lembrava. E então a mãe dela estava lá e eu meio que queria perguntar a mãe o que mais ela e a filha estavam fazendo porque me parecia que ela deveria estar na escola, mas não cabe muito a mim.
Estar entre a autora e o estúdio, pode ser bastante peso. É, e eu tenho que dizer que a Summit entende que os fãs querem ver o livro no filme, não só um filme para comer pipoca.
E seu irmão Paul também tem um filme de vampiros no segundo grau saindo?
Ele tem. Isso não foi planejado de nenhuma forma. É muito engraçado. Uma semana antes de me oferecerem Lua Nova, eu estava me perguntando por que tinham tantos filmes de vampiros por aí. Paul queria desde longa data fazer um filme de amor grotesco, que a série Cirque du Freak permitiu pelo seu visual e pelo tipo de perversidade, perversão não, mas a perversidade, dos livros e do roteiro. É uma coincidência engraçada. Na verdade, se você quiser dar um passo a mais, a minha avó era uma atriz de cinema mudo, ela fez a versão mexicana de Drácula. Eles gravaram nos mesmos sets que a versão Todd Browning, mas eles começaram a gravar à meia-noite. Meu avô, que era um produtor para a Universal na época, estava cortejando minha avó, e quando o cinema falado saiu, não tinham papeis para mulheres com forte sotaque mexicano. Ele convenceu Carl Laemmle na Universal que se poderia ter lucro, usando os mesmos sets durante a noite para fazer versões de idioma espanhol do mesmo filme. Assim, o Drácula espanhol. É um grande prazer para os nerds comparar a versão de Todd Browning com a versão mexicana.
E se o seu avô não tivesse feito isso, você poderia nem existir. Isso é verdade. Se não fossem os vampiros …
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